Sua verdadeira
história é, sob muitos aspectos, mais fascinante
do que as lendas que há mais de 2000 anos cercam o seu nome
Esta cabeça em pedra calcária,
que durante anos se supôs ser uma escultura moderna da fabulosa Rainha do Egito, foi na realidade
desenterrada de ruínas romanas 18 séculos depois de sua morte.
Encontra-se atualmente no Museu Britânico
C
LEÓPATRA
é geralmente lembrada como uma mulher fatal egípcia, uma
sedutora libertina que se matou por amor ao general romano
Marco Antônio. Há pouca verdade nisso. Embora Cleópatra fosse
rainha daquele antigo reino, não corria nas suas veias uma
só gota de sangue egípcio. Ela era grega da Macedônia; sua
capital egípcia, Alexandria, era uma cidade grega, e o
idioma da sua corte era o grego. Sua dinastia fora fundada
por Ptolemeu, general macedônio de Alexandre, o Grande, que
depois da morte deste se fizera rei do Egito.
Quanto à sua devassidão, não há o menor indício de ligações
amorosas de Cleópatra, a não ser com Júlio César e, três anos
depois da morte de César, com Marco Antônio. E estas não foram
ligações ao acaso e sim uniões públicas, aprovadas pelos
sacerdotes de então e reconhecidas no Egito como casamentos.
É absurda a versão de que ela era uma mulher sensual, que
usou de todos os ardis para seduzir esses homens. Júlio
César, uns 30 anos mais velho do que ela, já tivera quatro
esposas e inúmeras amantes. Seus soldados o chamavam de
"adúltero careca" e cantavam um dístico
advertindo os maridos que mantivessem as mulheres fechadas à
chave quando ele andasse por perto. Marco Antônio, 14 anos
mais velho do que a jovem rainha, era também um conquistador
conhecido. E, no fim, não foi por amor a ele que Cleópatra
se matou, e sim pelo desejo de escapar à degradação nas
mãos de outro conquistador.
Mas a lenda persiste há mais de 2000 anos, principalmente
porque poetas e dramaturgos, inclusive Shakespeare, têm dado
maior ênfase aos encantos físicos e às paixões do que à
inteligência e à coragem dessa rainha. Seus feitos, porém,
revelam que ela foi uma mulher brilhante, engenhosa, que
passou a vida lutando para impedir que seu país fosse
aniquilado pelos romanos.
Nascida em 68 ou 69 A.C., Cleópatra cresceu entre as
intrigas e as violências palacianas. Seu pai, Ptolemeu XIII,
era um bêbado, um devasso cujo divertimento era tocar flauta.
Morreu quando Cleópatra tinha 18 anos, e ela então se tornou
rainha, governando juntamente com seu irmão de dez anos,
Ptolemeu XIV. Dois anos depois, o jovem Ptolemeu, dominado por
um trio de intrigantes palacianos, obrigou Cleópatra a exilar-se
na Síria. Mostrando desde então a bravura que caracterizou sua
vida, ela imediatamente organizou um exército e teve início
a marcha através do deserto para lutar por seu trono.
Foi essa a Cleópatra que César conheceu no outono de 48 A.C.
Ele fora ao Egito em perseguição ao general romano Pompeu, seu
adversário numa luta pelo domínio político, gênero de contenda
que manteria Roma convulsionada durante quase um século.
Qual o aspecto físico de Cleópatra? As únicas
indicações são algumas moedas cunhadas com o seu perfil e um
busto desenterrado de ruínas romanas cerca de 1800 anos depois
da sua morte. Mostram um nariz aquilino, boca bem traçada, com
lábios finamente cinzelados. Vários historiadores antigos
escreveram sobre sua "beleza arrebatadora", mas não foram homens
que a tivessem visto pessoalmente. A descrição mais precisa
parece ser a de Plutarco, cujo avô ouviu falar em Cleópatra
por um médico conhecido de uma das cozinheiras da rainha.
Plutarco escreveu que na realidade a sua beleza "não
era propriamente tão extraordinária que ninguém pudesse
comparar-se a ela".
Todos os escritores antigos
concordavam, porém, em reconhecer a sua conversa
"fascinante", a sua bonita voz, "a habilidade
e a sutileza de sua linguagem". Ela falava seis idiomas,
conhecia bem a história, a literatura e a filosofia gregas,
era uma negociadora astuta e, ao que parece, uma estrategista
militar de primeira ordem. Tinha também uma grande
habilidade para cercar-se de uma atmosfera teatral. Quando
intimada por César a deixar suas tropas e a comparecer ao
palácio que ele conquistara em Alexandria, Cleópatra
introduziu-se na cidade ao escurecer, fez-se amarrar num rolo
de roupas de cama, e assim escondida foi carregada nas costas
de um servo através dos portões e até aos aposentos de César.
Quer o estratagema se
destinasse a evitar os assassinos a soldo do irmão, quer se
destinasse a impressionar César, o fato é que a sua entrada
na cidade foi uma das mais sensacionais de todos os tempos.
Sua coragem e seu encanto concorreram para convencer César
de que seria de boa política restituir-lhe o trono. E, pouco
tempo depois desse primeiro encontro, ela estava grávida.
Talvez para impressionar César com a
riqueza do Egito, Cleópatra organizou na primavera seguinte
uma expedição para subir o Nilo. Durante semanas, ela e César
navegaram pelo rio num luxuoso barco-residência, acompanhados
por 400 embarcações levando tropas e provisões. Em junho,
Cleópatra deu à luz um filho, Cesarion ou Pequeno César, em
grego. O recém-nascido, filho único de Júlio César, parece ter
sido a origem de um plano ambicioso de César e Cleópatra
para fundirem Roma e o Egito num vasto império sob o
domínio deles e dos de sua estirpe. Logo depois do
nascimento do menino, César partiu de Alexandria e começou
operações militares na Ásia Menor e na África do Norte,
eliminando todos os focos de oposição restantes. Um ano
depois, voltava triunfalmente a Roma, como ditador
incontestado. Cleópatra já estava lá com Cesarion,
instalada por César numa vila imponente.
Como rainha, com uma corte real, Cleópatra começou a exercer
influência na vida romana. Levou de Alexandria cunhadores de
moedas para melhorarem a cunhagem romana, especialistas em
finanças para organizarem o programa tributário de César. Seus
astrônomos reformaram o calendário romano, criando o
calendário no qual se baseia o nosso atual sistema. César
mandou colocar uma estátua de Cleópatra num novo templo
construído em honra de Vênus, e emitiu uma moeda em que
Vênus e Eros se identificavam com a figura de Cleópatra
carregando Cesarion nos braços. Seu poder parecia absoluto.
De repente, 20 meses depois de Cleópatra chegar a Roma,
Júlio César foi assassinado.
Ninguém sabe se Cleópatra
foi tomada de desespero. Ao cabo de um mês, voltou para o
Egito. Os historiadores não dispõem de dados sobre os três
anos seguintes de seu reinado. Só se sabe que, na luta pelo
poder, que mergulhou Roma numa guerra civil, os contendores
procuravam seu auxílio. Ao que parece, sua política foi de
cautelosa espera, para ver quem se tornaria o sucessor de
César.
Quando Marco Antônio surgiu como
homem forte do Oriente, pediu a Cleópatra que
fosse ao seu encontro em Tarso. Durante algum tempo ela não
tomou conhecimento do convite; depois, levantou vela com uma
frota magnífica, levando ouro, escravos, cavalos e jóias.
Em Tarso, em vez de ir à terra como suplicante, Cleópatra
esperou calmamente, ancorada ao largo. Depois de haver
manobrado habilmente para que Marco Antônio se tornasse seu
convidado, ela o confrontou com um espetáculo ofuscante: os
remos da galera, com pontas de prata, marcando o compasso da
música das flautas e harpas, as cordas manobradas por belos
escravos vestidos como ninfas e graças, enquanto outros
espargiam o incenso de perfumes exóticos. Reclinada sob um
toldo de ouro, Cleópatra se apresentava como Vênus, abanada
por meninos que pareciam cupidos.
Ao terminar o banquete, Cleópatra deu de presente a Marco
Antônio o prato de ouro, as formosas taças, os suntuosos
canapés e bordados que tinham sido utilizados para servi-lo.
Na noite seguinte ofereceu nova festa a Marco Antônio e seus
oficiais, e, quando eles partiram, todos os convidados
receberam idênticos presentes. Seu propósito não era conquistar
a afeição de Marco Antônio, mas impressioná-lo com a
riqueza ilimitada do Egito e, portanto, com as suas
potencialidades como aliado.
Três meses depois, Marco Antônio foi a Alexandria, e
lá passou o inverno. Partiu na primavera, seis meses antes de
Cleópatra dar à luz os seus filhos gêmeos, e passou quase quatro
anos sem tornar a vê-la. Nesse intervalo, Cleópatra fortaleceu
as defesas de seu país, organizou sua esquadra, acumulou ouro e
provisões. Quando Marco Antônio, na esperança de expandir
seu poder no Oriente, a convidou a ir ao seu encontro na
Síria, ela foi, mas resolvida a impor condições. Conseguiu
obter um acordo pelo qual seriam dadas ao Egito todas as
vastas áreas que haviam sido propriedade dos Faraós 1400
anos antes, mas que eram então províncias romanas. Marco
Antônio concordou também com um casamento legítimo, e,
para comemorar o acontecimento, foram cunhadas moedas com as
efígies dos dois. Nessa ocasião, Cleópatra começou uma
nova etapa de seu reinado.
Então com 33 anos, partiu com Marco Antônio
para fazer guerra aos persas, mas no Eufrates teve de desistir
da campanha. Estava novamente grávida. A criança nasceu no
outono, e naquele inverno chegaram apelos desesperados de
Marco Antônio: seu exército fora destroçado, e os únicos
remanescentes das tropas mal tinham conseguido escapar para a
costa da Síria. Com dinheiro, provisões e armas, Cleópatra
foi em seu socorro.
No ano seguinte, 35 A.C., ela teve de usar de todo seu
engenho para evitar que Marco Antônio — com o espírito
anuviado pela continuidade da bebida — tentasse outra invasão
da Pérsia. Compreendendo que o verdadeiro inimigo era Otávio,
sobrinho e herdeiro legítimo de César, que de Roma dominava o
Ocidente, ela insistiu com Marco Antônio para que
concentrasse todos os esforços em derrubá-lo. Em 32 A.C.,
Cleópatra precipitou a guerra com Otávio, persuadindo Marco
Antônio a tomar duas providências: baixar um édito pelo
qual se divorciava de sua outra esposa, Otávia (a bela irmã
de Otávio), e determinar que suas tropas atravessassem o Mar
Egeu e entrassem na Grécia. Cleópatra estava então no
apogeu. Reis vassalos do Oriente Médio prestavam-lhe
homenagem, os atenienses cobriram-na de honrarias, saudando-a
como Afrodite e levantando sua estátua na Acrópole.
De repente, em Actium, na
costa ocidental da Grécia, ao cair da tarde de 2 de setembro
do ano 31 A.C., tudo se desmoronou. Os historiadores nunca
chegaram a um acordo sobre essa batalha decisiva: não se
sabe o motivo por que Marco Antônio, com um exército
superior, deixou que ela se transformasse numa batalha naval;
nem por que, em plena batalha naval, com o resultado ainda
indeciso, Cleópatra levantou vela e partiu a todo pano para
o Egito, com os seus 60 navios de guerra; ou por que Marco
Antônio deixou abandonado seu imenso exército para embarcar
no navio de Cleópatra e partir com ela.
Ao voltar para o Egito, quando se espalhou a notícia do
desastre, Cleópatra tentou fortalecer os laços com os países
vizinhos. E começou também a transferir navios de guerra do
Mediterrâneo para o Mar Vermelho — projeto fabuloso, que
importava em arrastar os navios através de muitos quilômetros
de deserto.
Quando chegaram as tropas de Otávio e tomaram os
fortes da fronteira do Egito, Cleópatra permaneceu em
Alexandria, pronta a negociar com Otávio, ou a combatê-lo.
Mas, à aproximação do exército invasor, a esquadra e a
cavalaria da rainha desertaram e Marco Antônio suicidou-se.
Capturada viva, Cleópatra foi posta sob guarda e advertida de
que, caso se matasse, seus filhos seriam executados.
Embora Otávio prometesse clemência, Cleópatra presumiu
que seu destino seria semelhante ao de centenas de outros reis
cativos, que haviam sido levados em cortejo pelas ruas de Roma,
acorrentados, para serem depois executados. Audaciosa até o fim,
fingiu abandonar qualquer idéia de suicídio. Obtendo permissão
para visitar o túmulo de Marco Antônio, parece que
conseguiu comunicar-se com partidários fiéis quando a sua
liteira era carregada pelas ruas. Voltou aos seus aposentos,
tomou banho, jantou e mandou que suas servas a vestissem como
Vênus. Sobre o que aconteceu depois só sabemos o seguinte:
oficiais romanos que arrombaram seus aposentos encontraram
Cleópatra morta. Segundo a lenda, a rainha se deixara morder
por uma víbora que lhe fora mandada como contrabando numa cesta
de figos.
Quando se comemorou em Roma a conquista do Egito por Otávio,
foi arrastada pelas ruas uma estátua de Cleópatra com uma víbora
agarrada a um dos braços. Os seus três filhos com Marco Antônio
— Cesarion já fora executado — foram obrigados a marchar na
degradante procissão. Foi então que os poetas romanos, para caírem
nas boas graças do vencedor, começaram a espalhar o mito de uma
perversa e libertina rainha egípcia — mito que dura até o dia de
hoje.
Busto romano de Cleópatra
__________
Bibliografia: Arnaldo Poesia, Estudos Sobre o Egito Antigo -
Reedição do Autor, Niterói, 1995.
Imagens: Banco de Dados Starnews 2001.
Arqueólogos podem estar perto de
encontrar
local do túmulo de Cleópatra
Indícios da tumba da rainha foram achados perto de Alexandria.
Objetivo é acabar com polêmicas sobre beleza e morte da 'faraó'.
De uma hora para outra, os olhos do mundo se voltaram para o templo de
Abusir, no deserto do Saara. Cientistas acreditam que está enterrado aqui um
dos tesouros mais procurados pelos arqueólogos: a tumba de Cleópatra e de seu
amante, o general romano Marco Antônio.
Num mundo machista, Cleópatra reinou como nenhum homem. Historiadores falam
de sua beleza, inteligência e capacidade ímpar de seduzir. Mas a imagem que o
mundo moderno tem da eterna rainha do Egito é a criada pelo cinema, com o
rosto de Elizabeth Taylor.
Cleópatra foi a mulher de dois dos homens mais importantes de sua era.
Apaixonado, Júlio César providenciou para que ela assumisse o trono do Egito
sozinha. Com isso, Cleópatra se tornava a mulher mais poderosa do planeta. Com
o assassinato de César em pleno Senado romano, dirigiu seu charme para o
general Marco Antônio. Os dois se rebelaram contra Roma, mas a guerra foi
perdida no mar. Ao pensar que Cleópatra havia morrido, Antônio cometeu
suicídio com a própria espada. Ela, ao ver o marido morto, usou uma serpente
para se matar também. Antes, pediu para ser enterrada num local secreto.
— Taposíris
Há 15 anos, a arqueóloga dominicana Kathlen Martinez se dedica a procurar
esse lugar. De escavação em escavação, ela chegou à colina de Taposíris.
Usando satélites e radares, os pesquisadores já sabem que existe um emaranhado
de túneis e passagens secretas que interligam as tumbas na área. Isso torna
Abusir um templo único no Egito — e a possível chave de um grande
mistério.
Os satélites mapearam os arredores de Alexandria e acharam indícios da tumba
de Cleópatra: moedas com a imagem da rainha, corpos de sacerdotes em posição
fetal — típico dos que cometiam suicídio logo depois de enterrar seus
amos. Por fim, veio a descoberta de um cemitério a menos de um quilômetro do
velho templo. No Egito Antigo, os cemitérios dos mortais comuns ficavam sempre
próximos da tumba de um rei ou rainha.
O secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, Zahi Hawass,
acompanha o trabalho dos arqueólogos há mais de 40 anos. Ele diz que nada se
compara à descoberta que, na opinião dele, está prestes a acontecer.
"Saber, de fato, como Cleópatra era, com que tesouros foi enterrada, como
viveu e morreu, poder comprovar a história, desmistificar o que é lenda —
este lugar pode nos dar tudo isso. Mas, por mais que se descubra sua tumba,
Cleópatra manterá ao redor de si uma aura de mistério", diz Hawass.
______
Fonte: Fantástico (Rede Globo), 10 de maio de 2009.
Museu do Louvre Excelente site do Museu do
Louvre, Paris, sobre a civilização egípcia.
Museu Britânico
- Egito Antigo O setor do museu, dedicado
ao Egito Antigo (Egypt), é o ponto de referência para pesquisadores e
estudiosos.
Egito ptolemaico
O Egito ptolemaico é um período da história do Egito que decorre
entre 305 a.C., ano em que um antigo general de Alexandre Magno, Ptolemeu
I Sóter, se tornou rei do Egito, e 30 a.C quando a rainha Cleópatra VII
foi derrotada e o Egito passou a ser integrado no Império Romano como
província.
A escultura de Cleópatra (ao lado) pertence a esse período.